A editora Europa‑América acaba de lançar em Portugal a versão em português de Feral, obra de estreia em romance de Gabriela Jáuregui, uma voz literária emergente e vibrante do México, com tradução de Cristina Rodriguez.
Feral é um romance que articula passado, presente e futuro através de uma narrativa sofisticada e inquietante.
A ação central situa-se no “Dia 0”: o dia em que Eugénia, uma das quatro amigas que viviam numa comuna, é assassinada enquanto trabalhava numa escavação arqueológica em Teotihuacán. Diana, Saratoga e Yunuen veem-se confrontadas não só com o luto e a dor da perda, mas com a necessidade de assumir o papel de investigadoras, para reconstruir memórias e rastrear a violência que se abateu sobre a amiga.

Paralelamente, uma voz coro-arquivística vinda de um futuro distante intervém, remexendo registos, documentos, vestígios que esse mundo deixou para trás. O livro conjuga a intimidade da dor com a análise política da violência de género – em especial dos feminicídios no México – e ao mesmo tempo, aposta na utopia, na amizade, na resistência e numa esperança de regeneração.
A linguagem é muitas vezes poética, fragmentária, experimental — refletem a própria forma como a autora concebe memória, perda e o desejo de reinventar-se.
O livro venceu o Prémio Bellas Artes de Narrativa Colima 2023 no México.
Este lançamento representa uma oportunidade para leitoras e leitores em Portugal conhecerem uma narrativa forte, urgente e cheia de nuances sobre género, violência, memória, comunidade e futuro.
Gabriela Jauregui nasceu em 1979 na Cidade do México. É poetisa, contista, tradutora, editora e teórica literária. Possui um Mestrado em Escrita Criativa pela UC Riverside, um mestrado em Literatura Comparada pela UC Irvine e um Doutoramento em Literatura Comparada pela USC.
Publicou várias coletâneas de poesia e contos antes de se dedicar à ficção longa; foi incluída na lista Bogotá39 de 2017 dos escritores latino-americanos mais promissores.

Em entrevistas, afirmou que Feral lhe tomou oito anos de trabalho – tanto pela carga emocional como pela exigência formal – e que o livro resultou de uma necessidade de narrar o feminicídio e o luto das mulheres a partir de uma perspectiva interna, não apenas como vítima, mas como amiga, testemunha e investigadora na ficção.
Gabriela tem como desejo que, no futuro, este livro pudesse tornar-se “um documento caduco do passado”, isto é, algo que nos mostre o horror que já não existe mais.
A versão em português foi traduzida por Cristina Rodríguez, premiada tradutora a quem é reconhecido o rigor e a sensibilidade que este tipo de narrativa exige. A publicação em português permitirá que leitores em Portugal se apropriem desta voz literária única, mantendo o engenho formal e a carga simbólica do original.
É importante realçar a relevância da tradutora em tornar acessível o jogo de vozes múltiplas, a estrutura coral e a linguagem híbrida da autora, aspectos que fazem de Feral uma leitura densa e recompensadora.
“Uma narrativa audaz e turbulenta, tecida por uma comuna de mulheres que procuram justiça pelo assassinato da sua amiga Eugenia, uma jovem arqueóloga que trabalhava numa comunidade sitiada pelo extrativismo. Com uma prosa íntima e poderosa, o romance dá forma a um exuberante arquivo que explora as dinâmicas de solidariedade e afeto entre mulheres, enquanto confronta as duras realidades do feminicídio, da impunidade e da discriminação, entre outros flagelos do México contemporâneo.”
Fernanda Melchor (autora de Temporada de Furacões), Guillermo Arriaga e Socorro Venegas enquanto jurí do Prémio Amazon Primeiro Romance
“Se pudéssemos ouvir o futuro, esta seria a sua voz. Gabriela Jauregui deu voz ao tempo: através das vozes na comuna, constrói-se o relato da perda e da ausência enquanto se ergue a trincheira da última resistência: a língua, o testemunho.”
Emiliano Monge, El País
«Feral é uma tragédia grega trazida para o presente feminicida do México e é também a história de quatro amigas que se descobrem, se inquietam, se politizam, se organizam: partilham… O primeiro romance de Gabriela Jauregui — como tudo o que ela escreve — é uma combinação de talento, inteligência, empatia, um profundo compromisso político e um carisma expansivo».
Brenda Lozano
Porque é uma história de amizade, perda e resistência contada com uma força literária rara.
Gabriela Jauregui transforma o tema da violência e do luto num ato de criação e esperança, recusando o cinismo e mostrando como, mesmo diante da destruição, as vozes das mulheres se podem unir para reconstruir o mundo.
Porque a autora reinventa a forma do romance, misturando diários, registos de objetos, fragmentos poéticos e um coro coletivo de “arquivistas do futuro” — uma linguagem inovadora que desafia as fronteiras entre memória, ficção e utopia.
Porque Feral não é apenas um livro sobre o México, mas sobre todas as sociedades que enfrentam desigualdade, esquecimento e a urgência de imaginar novos futuros.
E, finalmente, porque a tradução de Cristina Rodríguez capta com precisão o tom lírico e múltiplo do original, tornando o português uma nova língua para o mesmo grito. E para a mesma esperança.
Feral é uma viagem pelos túneis do tempo a partir dos quais se constrói o saber que explica as ruínas do nosso presente. Um saber que é preciso reconstruir e recontar porque, como dizem as arquivistas, «algum dia este arquivo será jardim».


