Entre a poesia, o ensaio e a ficção, a mexicana Gabriela Jauregui tornou-se uma das vozes mais estimulantes da literatura contemporânea latino-americana. Poeta, editora e tradutora, doutorada em Literatura Comparada, publicou poesia e contos antes de chegar à estreia em romance com Feral, agora editado em Portugal pela Europa-América, obra distinguida com o Prémio Bellas Artes de Narrativa Colima 2023.

Feral acompanha o assassinato de Eugénia, jovem arqueóloga em Teotihuacán, e o luto das suas amigas – Diana, Yunuén e Saratoga – cruzando a investigação dessas mulheres com uma voz coral de “arquivistas do futuro” que recolhem e reorganizam os vestígios da nossa época. A estrutura alterna diários, registos de objetos e uma narração coletiva que ecoa um coro grego, num jogo de camadas “verticais” do tempo.
Jauregui tem dito que o impulso para escrever Feral nasce de experiências de perda e da necessidade de documentar sem revitimizar. Ao El País, confidenciou: “Este livro eu não teria de o escrever… mas de que mais vamos falar?”, sublinhando a tensão entre responsabilidade e liberdade da ficção para imaginar outros mundos.
Numa conversa com a revista Este País, a autora explicita a estratégia narrativa: contar “desde o futuro” para permitir a esperança: “o pretexto de contar desde o futuro é poder dizer que sobrevivemos, apesar do horror”. O arquivo, as múltiplas vozes e a polifonia são, para Gabriela, recursos literários e políticos para pensar o feminicídio e os laços de amizade como força de resistência perante o grave problema social da violência contra mulheres que se vive no México.
Em entrevistas e apresentações públicas, Gabriela Jauregui insiste em que Feral afasta o cinismo e aposta na comunhão e no cuidado entre mulheres. Na FILEY (México), por exemplo, resumiu a urgência de continuar a falar de feminicídios e de narrar o luto a partir de quem o vive.
Em outra conferência (Instituto Sinaloense de Cultura), contou que a história nasceu do luto pela morte violenta de uma amiga, e que escrever o romance foi também uma forma de transformar a dor em memória e ação.
Além do Prémio Bellas Artes de Narrativa Colima 2023, Feral tem despertado interesse internacional: a Feminist Press adquiriu os direitos de língua inglesa, com publicação anunciada para outono de 2026 (trad. Heather Cleary).
Nascida na Cidade do México em 1979, Gabriela Jauregui é autora de poesia, contos e ensaio, coorganizadora das antologias Tsunami e Tsunami 2, e tem trabalho publicado em revistas e antologias no México, EUA e Europa. É autora do livro de contos A memória das coisas (2015), bem como do livro de ensaio e poesia ManyFiestas (2017), das colectâneas de poesia Leash Seeks Lost Bitch (2016) e Controlled Decay (2008) e coautora de Taller de Taquimecanografía (2011).
É doutorada em Literatura Comparada pela Universidade do Sul da Califórnia, tem um mestrado em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia, Riverside, e um mestrado em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Irvine. É editora e cofundadora do coletivo editorial Surplus Ediciones no México e presidente do Júri do Prémio Aura Estrada para jovens escritoras. Em 2017, foi seleccionada como uma das 39 escritoras mais promissoras da América Latina com menos de 40 anos, na lista Bogotá39.
Feral é o seu primeiro romance e e valeu-lhe o Prémio Bellas Artes de Narrativa Colima 2023 (México).


